Ao nível político, tem-se acentuado a degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários, praticamente generalizada a todo o espectro político.
É uma situação preocupante para quem acredita que a democracia representativa é o regime que melhor assegura o bem comum de sociedades desenvolvidas. O seu eventual fracasso, com o estreitamento do papel da mediação partidária, criará um vácuo propício ao acirrar das emoções mais primárias em detrimento da razão e à consequente emergência de derivas populistas, caciquistas, personalistas, etc.
Importa, por isso, perseverar na defesa da democracia representativa e das suas instituições. E desde logo, dos partidos políticos, pilares do eficaz funcionamento de uma democracia representativa. Mas há três condições para que estes possam cumprir adequadamente o seu papel.
Têm, por um lado, de ser capazes de mobilizar os talentos da sociedade para uma elite de serviço; por outro lado, a sua presença não pode ser dominadora a ponto de asfixiar a sociedade e o Estado, coarctando a necessária e vivificante diversidade e o dinamismo criativo; finalmente, não devem ser um objectivo em si mesmos...
É por isso preocupante ver o afunilamento da qualidade dos partidos, seja pela dificuldade em atrair e reter os cidadãos mais qualificados, seja por critérios de selecção, cada vez mais favoráveis à gestão de interesses do que à promoção da qualidade cívica. E é também preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária – quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada – muito para além do que deve ser o seu espaço natural.
Estas tendências são factores de empobrecimento do regime político e da qualidade da vida cívica. O que, em última instância, não deixará de se reflectir na qualidade de vida dos portugueses.
Outro factor de degradação da qualidade da vida política é o resultado da combinação de alguma comunicação social sensacionalista com uma justiça ineficaz. E a sensação de que a justiça também funciona por vezes subordinada a agendas políticas.
Com ou sem intencionalidade, essa combinação alimenta um estado de suspeição generalizada sobre a classe política, sem contudo conduzir a quaisquer condenações relevantes. É o pior dos mundos: sendo fácil e impune lançar suspeitas infundadas, muitas pessoas sérias e competentes afastam-se da política, empobrecendo-a; a banalização da suspeita e a incapacidade de condenar os culpados (e ilibar inocentes) favorece os mal-intencionados, diluídos na confusão. Resulta a desacreditação do sistema político e a adversa e perversa selecção dos seus agentes.
Misturando-se verdades e suspeitas, coisas importantes e minudências, destroem-se impunemente reputações laboriosamente construídas, ao mesmo tempo que, banalizando o mal, se favorecem as pessoas sem escrúpulos.
Por seu lado, o Estado tem uma presença asfixiante sobre toda a sociedade, a ponto de não ser exagero considerar que é cada vez mais estreito o espaço deixado verdadeiramente livre para a iniciativa privada. Além disso, demite-se muitas vezes do seu dever de isenta regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados, que deixam em muitos um perigoso rasto de desconfiança.
Num ambiente de relativismo moral, é frequentemente promovida a confusão entre o que a lei não proíbe explicitamente e o que é eticamente aceitável, tentando tornar a lei no único regulador aceitável dos comportamentos sociais.
Não será, pois, por acaso que é precisamente na penumbra do que a lei não prevê explicitamente que proliferam comportamentos contrários ao interesse da sociedade e ao bem comum. E que é justamente nessa penumbra sem valores que medra a corrupção, um cancro que corrói a sociedade e que a justiça não alcança.
(...)
a crescente ousadia dos criminosos transmite o sentimento de que a impune experimentação vai consolidando saber e experiência na escala da violência.
Ora, para além de alguns fogachos mediáticos, não se vê uma acção consistente, da prevenção, da investigação e da justiça, para transmitir a desejada tranquilidade.
Mas enquanto subsiste uma cultura predominantemente laxista no cumprimento da lei, em áreas menos relevantes para as necessidades do bom funcionamento da sociedade emerge, por vezes, uma espécie de fundamentalismo utra-zeloso, sem sentido de proporcionalidade ou bom-senso.
Para se ter uma noção objectiva da desproporção entre os riscos que a sociedade enfrenta e o empenho do Estado para os enfrentar, calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau, ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária e confronte-se com o zelo que o Estado visivelmente lhes dedicou.
(...)
O mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento. E se essa espiral descendente continuar, emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever...
Não podemos, por isso, ceder à resignação sem recusarmos a liberdade com que assumimos a responsabilidade pelo nosso destino. (...)
... excertos nao ordenados (versão integral pode ser encontrada no Público) do relatório da Associação Para o Desenvolvimento Económico e Social...
revejo bastante Portugal nas linhas acima, infelizmente. E revejo-me a mim, também infelizmente.
É verdade que é cobarde ceder à resignação "sem recusar à liberdade com que assumimos a responsabilidade pelo nosso destino". A cada direito que deixamos de exigir, a cada chico-esperto que deixamos passar impune, estamos a faltar ao respeito a nós próprios e a automutilar-nos na nossa liberdade. E não se iludam, só nós próprios somos responsáveis por isso! Pouca gente consegue e sabe lutar pelos seus direitos, e ao faze-lo luta pelos de uma sociedade inteira, egoísta e que, raros exemplos, nem o consegue reconhecer! Talvez seja trauma de saber o gosto amargo que pode ter a luta pelo direito dos outros (e pelos nossos)... e a constatação cercana de que raramente conduz à felicidade (ou sim - pergunta para a dona do megafone lá de casa -? no fundo todos buscamos a felicidade, certo?). A verdade é que é mais fácil atribuir culpas a este pseudo-trauma do que admitir a inércia, suponho! Somos uma geração de bananas?!?!
Outro ponto é que dificilmente somos livres (uns mais que outros, certo está), mas é a sociedade portuguesa, forma geral, livre??? Liberdade não é um adjectivo temporário, é um estado. Liberdade implica educação para a liberdade, educação para a máxima responsabilidade, para as escolhas e não creio que tenhamos sido ensinados minimamente para a liberdade. Fomos protegidos, demasiado! E da protecção resulta a fácil atribuição de culpas a outrém... por outro lado, não tenho dúvidas que a classe politica se sabe hoje aproveitar de tudo isto (ou antes, é ela própria fruto de tudo isto) e dificilmente estamos a caminhar num sentido construtivo...
resta saber que vai fazer a sociedade e a classe politica acerca destas (a meu ver muito acertadas) linhas... ? provavelmente culparem-se um aos outros, relativizar.... "e mais uma volta, mais uma rodada..." ficaremos na mesma?!?
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